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34- A festa
quarta-feira, 1 de julho de 2009


Lyla estava colorida em preto e branco. Suas tranças pegavam fogo, mas este não se alastrava pelo resto do corpo, apenas queimava ininterruptamente a trabalhosa trança. Seus olhos congelavam, sendo difícil girá-los na órbita, a luz caia ameaçadoramente por ela e o som fazia tremer sua cabeça, dobrando tudo a sua vista.

As mãos de Linda se metamorfosearam em pinças, que em nada ajudavam-na a nadar contra o líquido dourado que começava a inundar o local. Assim que o este atingiu uma altura considerável, suas pernas se tranformaram num longa cauda escamosa: ela era agora uma sereia.

Sneer rastejava atrás do ouro, mas grilos e seus incessantes cantorios tentavam impedi-lo. O garoto seguia obedientemente o caminho indicado pelas luzes, fugindo dos olhares furiosos que o cercavam.

Meyer havia tirado a roupa, a pele de cordeiro começava a esquentá-lo e os comensais da morte não gostariam nada disso, quando descobrissem iriam atrás dele, precisava urgentemente de uma varinha.

O fogo adquirira vontade própria e fugira da sua trança, contudo, agora todo o local estava em chamas, que a loira tentava apagar, numa luta perdida contra os poderosos holofotes. O desespero começou a acometê-la, tudo tremia, o som golpeava sem dó seus frágeis ouvidos; tinha que fugir.

Linda nadava tranquilamente no adorável líquido dourado, iria afogar um por um seus inimigos, sem dó, agarrava-os com suas pinças e uma vez na profundeza do ginásio, aplicava-lhes seu fatal veneno, só precisava cuidar para que ninguém sentisse falta deles; iria fugir. Mas não o fez, não porque havia mudado de ideia, mas sim pelo fato do mar dourado ter se solidificado e ela ficado presa lá no meio, sem conseguir mover-se. Iriam descobri-la.

Da escuridão surgiram caçadores de ogros, carregando suas lanternas fluorescentes eles pareciam saber o que Sneer havia feito. Precisava fugir, se esconder. Chifres cresceram no topo de sua cabeça e o garoto começou a golpear fatalmente os inimigos, não seria vencido com tanta facilidade.

As luzes se apagaram e Meyer tratou de correr o mais rápido que pode para debaixo das mesas. Os comensais apareceriam a qualquer momento, precisava daquelas poções, mas qual seria a polissuco? Na primeira oportunidade que teve, driblou os trasgos e tomou tantas garrafas quanto conseguiu: funcionara, estava invisível, agora era só fugir.

O fogo voltara para Lyla, mas agora ele encharcava a garota sem no entanto ousar queimá-la, era uma sensacão estranha, um duelo entre seus sentidos. Na escuridão, a loira brilhava chamativamente. Se não conseguisse apagar-se, todos descbririam a verdade, Linda saberia de tudo.

A ruiva ainda estava presa, mas não por muito tempo, devido a alta volatilidade que adquirira, logo iria evaporar, seu cérebro e sua alma sairiam pelos seus poros. Ao longe avistou um cavaleiro branco, a esperança retornou a suas entranhas, estava salva.

O calor começava a sufocar Sneer, o ar se tornara irrespirável, mesmo com os caçadores derrotados, sua vida corria risco, teria que alcançar a porta e para isso precisaria cavar.

Meyer corria para porta, derrubando como pinos de boliche qualquer um que entrasse em seu caminho. Seus duendes de estimação festejavam a vitória dentro de sua cabeça. No entanto eles teriam que morrer, e o só o ar puro faria isso por ele.

O fogo cessara, mas parecia ser tarde demais. Um grande palhaço e um binóculo alado vinham na direção de Lyla. Ao chegarem o primeiro disse palavras sem nexo que fizeram-na rir. Em seguida fugiu e a loira o seguiu. Ele não escaparia de novo.

Uma árvore começou a segui-los, mas o cavaleiro branco parecia não se importar com isso. Linda tentava escapar de suas sombras, sua cauda agora eram uteis asas que permitiam-na voar acima da confusão. Seguiu a luz e chegou sem dificuldade a porta: estava livre, só precisava correr.

Cavar não funcionara, então Sneer começou a passar pela multidão dando cambalhotas; não demorou muito para que encontrasse a saída e pudesse voltar a respirar. Ao longe três massas de modelar corriam desembestadamente.

Um árvore de Natal estava parada na saída. Quando esta começou a se mover, Meyer a seguiu. Já lá fora os duendes abandonaram sua cabeça. Os comensais da morte nunca o encontrariam, tudo ficaria bem.


Música: Tomorrow Never Knows - The Beatles

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31- Sneer e Lyla
quarta-feira, 24 de junho de 2009


Sneer estava na biblioteca, lá a Inteligência iniciaria outra busca desesperada pela bomba; lá ele retomaria a busca pelo coração de sua amada dos cachos dourados. Enfileirados como soldados, a sua frente cerca de 30 pessoas aguardavam ordens obedientemente, estas vieram num tom desesperançoso:
-Certo, dessa vez nada escapará a nossos olhos, certifiquem-se de olhar todos os livros, prateleiras , corredores e janelas. Dividam-se em duplas ou trios, escolham uma fileira e boa diversão!
Meyer, o usual parceiro de Sneer havia faltado - perfeito- pensou e antes que Lyla pudesse se afastar agarrou-a pelo ombro, a garota virou-se assustada:
-Se importa de me ajudar? Meyer não apareceu e acabei ficando sem dupla. - Ele precisava ser convincente, já que não mantinha um diálogo decente com a garota desde o primeiro dia.
A loira ficou de olhos baixos e depois de um certo tempo pensando disse no seu mais meigo tom de voz:
-Claro, para qual prateleira nós vamos?
-Pouco importa. - A ansiedade crescia dentro dele, o resto já não fazia mais tanto sentido.
Caminharam errantemente por prateleiras já ocupadas, até que encontraram uma deserta; se tratavam de entediantes livros de química. Para a surpresa de Sneer, foi a loira quem falou:
-Você não quer só livros de química, não é mesmo?
-Não, serei direto. Você mudou – era uma afirmação – quando nos conhecemos você se importava mais com as pessoas que se importavam com você, dava mais valor aos amigos. - A reação da garota foi exatamente como ele esperava, seus olhos ficaram desfocados sinal de que ela se recolhera dentro de si mesma, tentando recordar um ano em poucos segundos, por fim falou:
-Os amigos continuam a ser a coisa mais importante para mim, mas não são a única, eu preciso viver também. Cansei de ser o exemplo, de fazer o que os outros acham certo.
-Você está se afastando, de sua irmã, de mim. Desde que começou a sair com esse Johnny Fun parece que não te conheço mais. - Ele exibia sua melhor cara de coitado.
-Nós conhecemos Johnnys diferentes, você não entenderia, pelo menos não por enquanto. - Lyla havia pensado muito nisso. Os corpos dela e de Sneer estavam muito próximos, o garoto levou seus dedos delicadamente às douradas madeixas acariciando-as e exibindo um leve odor de menta em sua boca disse:
-Faça-me entender. - A qualquer momento, pensou o garoto já de olhos fechados.
-Não – e Lyla se afastou – Não posso, me desculpe, tenho que ir. E se foi, abandonou a fileira onde estavam, e logo depois a biblioteca, deixando Sneer sozinho, com um grande vazio no peito e uma solitária lágrima serpenteado por suas bochechas até cair tristemente no chão.


Música: Glue Girl - Nikola Sarcevic

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26 - Lyla e Andy
quarta-feira, 10 de junho de 2009


Little e Andy estavam juntos, ela vestia um vestido muito branco e ele um elegante terno preto; se fitavam apaixonadamente e sem pressa alguma, ali seus problemas pareciam sumir. Suas cabeças foram sincronizadamente se aproximando, ele fechou os olhos aguardando o iminente beijo, mas este nunca veio. A pequena começou a gritar numa voz esganiçada e desafinada, o que o fez sentir-se culpado.
Andy acordou lentamente e viu um garoto sair correndo aos gritos do campo. Demorou para perceber o que acontecera, onde estava e porque se sentia daquele jeito, tão culpado, tão podre, tão triste.
Levantou-se. Estava sujo, terra, suor e sangue se fundiam num pouco agradável resultado, mas ele não parecia se importar. Caminhou mecanicamente até o prédio principal, tentando alienar-se da alegria dos pássaros que cantavam ou do sol que começava a banhar-los preguiçosamente; no meio do caminho encontrou a meiga Lyla com um desacordado Myer em seus braços. A garota logo se mostrou preocupada:
-O que houve? Você está bem?
-Não, nem um pouco – ele tentava se manter forte – Temos, temos mais uma morte. - De preocupada a feição de Lyla tornou-se temerosa e vazia, mordeu a parte inferior dos lábios e arregalou os olhos sem no entantou olhar para lugar algum se não para dentro de si mesma. Andy prosseguiu falando mais para si mesmo do que para a abstraída garota dos cabelos cor d'ouro. - Little Yuki, ontem no bosque. Fomos atacados por trás, nada pude fazer, desmaiei imediatamente e quando acordei lá estava ela, como um anjo, sangrando na garganta, já sem vida.
Lágrimas doces começaram a correr pela face de Lyla, Andy no entanto se mostrava incrívelmente forte:
-Já enterrei-a, avise a seu amigo Sneer. Vamos.
Apanhou sem muito jeito o inerte Meyer e carregou-o, acompanhando Lyla até o alvíssimo prédio principal. Lá em cima um garoto espiava pela janela, sem pensar duas vezes ele ergueu o dedo médio e passou pela porta a tempo de fingir não ver Linda saindo por uma das janelas.

Música: Tears in Heaven - Eric Clapton

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25 - Lyla
quinta-feira, 4 de junho de 2009


“Lyla estava no alto de uma grande rocha, de lá observava o mar amanhecido se chocar contra as pedras lá em baixo. O sol se escondia ainda tímido atrás de uma grandiosa nuvem. A garota pode observar um rapaz na praia- exatamente como ele prometera- pensou, fingiu se concentrar na música que ouvia, no baseado que fumava ou na ansiedade que a acometia e após longos e poucos minutos ele estava lá, virou-se e tudo havia sumido, nem mar ou sol, apenas fogo. Um gigantesco casarão em chamas iluminava o já anoitecido ceu. Passou a mão pelo pescoço e foi quando viu uma pessoa sair das chamas, carregando outra em seus braços heróicos. Se aproximou e tudo pareceu cessar: o fogo, o calor e o medo. Não havia mais nada além de um corpo estendido, sangrando sem vida, uma garota cujas lágrimas nunca mais tocariam o solo do St. Jimmy, surpreendentemente seus olhos se abriram, fazendo o coração de Lyla acelerar. A garota chorosa desenterrou firamente a faca do estômago e numa voz tão assutadora quanto o vento ziguezagueando por entre as árvores de um cemitério numa noite gelada disse:
-A culpa é sua, agora terá que pagar!
Lyla tentou sair correndo, no entanto suas pernas já não respondiam mais, seus braços permaneciam imóveis. Num rápido movimento agressivo com a faca Lyla foi atingida, foi quando acordou. "
Respirava ofegantemente, batimentos acelerados e olhos arregalados, desacostumados à escuridão. Ficou um bom tempo absorvendo aquela imagens, olhando desfocadamente para o teto escuro, até que resolveu levantar-se e sair dali. Tentando ter a maior discrição possível, pegou o paletó dado por Johnny no primeiro dia para proteger-se do frio matinal e passou porta a fora. Desceu um andar, estirou-se numa das confortávei poltronas e lá ficou. Ao colocar suas mãos num dos bolsos encontrou um papel e uma caneta já esquecidos, observando a primeira com mais atenção viu estampado em marca d'água o brasão do St. Jimmy; cheio de contornos, espirais, voltas e revoltas que iam e viam e tornavam a ir, embaralhando a mente e a visão, como finos fios caprichosamente embaralhados pelo acaso. No meio havia o que parecia ser um enigmático escorpião e uma misteriosa cobra. Seus olhos permaneceram estagnados, mas seu pensamento vagava desordenadamente por Sneer, Johnny e Linda, tudo tinha tudo para dar errado, por isso talvez desse certo.
Foi tirada de sua viagem por um rangido e quando olhou por entre os ombros viu um Meyer estranhamente assustado sair desembestado e desengonçado escada abaixo. Sem pressa e com sua sempre presente meiguice, tomou o mesmo rumo.
Desceu os degraus restantes até o terreo, passou pelo hall de entrada e saiu pelo caminho cimentado, sendo atiginda por uma chicotada de vento frio. Chegando a até então intacta cantina viu que tudo estava ainda uma bagunça, estranhamente, ninguém parara ainda para arrumar ou para fazer qualquer outra coisa por ali, decidiu ser a primeira.
Alguns papéis e canetas estavam jogados no chão, mesas caídas e cadeiras viradas. Enquanto pacientemente desfazia a confusão pode observar mais de perto que as folhas espalhadas, assim como as canetas desprezadas eram exatamente iguais às que ela trazia no bolso e tão diferentes das que estavam na secretaria e nos arredores. Estranho, julgou; o diretor pegar coisas da cantina, talvez fosse algo de última hora ou algo singular daquele robô maluco, ou talvez não fosse o robô, talvez....
E as coisas começaram a fazer sentido, muito diferente do Meyer que vinha correndo como uma ambulância e sua barulhenta sirene que ao chegar teve tempo apenas de dizer:
-Corram, para as montanhas. - e desmaiar.


Música: Lyla - Oasis

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17 - Uma semana depois
quarta-feira, 13 de maio de 2009


A primeira semana transcorreu bem apesar do início turbulento. O sol nascia e se punha todo dia e a chuva passava longe do St. Jimmy. O sistema implantado por Sneer funcionava excepcionalmente bem no que dependia do Estado, As camas estavam sempre arrumadas, a roupa limpa e a comida pronta, fora isso não havia muito trabalho a fazer e sobrava tempo para a diversão, o ócio, discussões, amizades, armações e qualquer outra atividade que os privilegiados cérebros daqueles alunos pudessem imaginar. O susto causado pelo St. Jimmy parecia se dissipar e as preocupações se esvaírem. No entanto, a Inteligência não apresentava evolução, o insucesso na busca da bomba começava a deixar desesperançosos os mais confiantes. Sneer começou a ser questionado após a quinta busca infrutífera:
-Da próxima vez poupemos trabalho – dizia uma garota forte com cara de má. - vamos esperar o indiano ter uma visão. Centenas de teorias foram divulgadas, as mais esperançosas diziam que não havia bomba, porém a única verdade era que estavam perdidos.
Apesar das cobranças, Sneer era felicidade pura. Mesmo não tendo trocado mais nenhuma palavra com Lyla, a cada discussão ou briga da garota com Johnny, seu sorriso aumentava, de modo que também devido às suas coloridas roupas logo foi anonimamente apelidado de “Curinga” .
Outra que fazia questão de demonstrar a alegria por meio do brilho em seu sorriso e argolas era Linda, os motivos eram os mesmos de Sneer: as cada vez mais constantes e graves brigas de sua irmã com Johnny. A ruiva temia que Lyla sentisse algo pelo garoto, contudo as recentes observações aliviavam-na.
Meyer já não fedia mais e em pouco tempo deixou de ser questionado pelo que ocorrera na biblioteca. As pessoas fizeram questão de esquecer o mais rapidamente possível o que acontecera. O atrapalhado garoto aproveitou o bom humor de Sneer para voltar para baixo de suas asas.
Mesmo com as constantes discordancias com Johnny, o humor de Lyla era excelente, o que chegava a impressionar Linda, e parecia contagiar a todos que a cercavam. Não se sabe se foi o belo sorriso, o estonteante verde de seus olhos, seu onipresente e adocicado perfume ou o conjunto da obra, mas era ela a pessoa mais popular do St. Jimmy. Com exceção de Johnny, todos que conviviam 1 minuto com ela se encantavam.
O garoto que anteriormente fazia de tudo para aparecer, agora era pouco visto em público e quando o era estava fazendo a alegria de Sneer e Linda. Segundo o próprio Johnny, ele estava cuidando de seus negócios. Sabidamente (pois Sneer mandar Meyer seguir o abobalhado garoto) Johnny passava seu tempo numa parte obscura do pomar. Frequentemente garotas eram vistas saindo de lá aos risinhos, mas quando questinoadas sobre o que lá havia, se faziam de desentendidas. Meyer tinha sua teoria ao contar o que vira para Sneer:
-Vai ver ele usa leglimens nas pobre coitadas.
-Isso é o que descobriremos - replicou o garoto, como se não tivesse ouvido a maluquice dita pelo seu mais fiel servo. - chame Linda aqui – e ao ver que Meyer tentava entender o plano completou – Agora!


Música: Sell Out - Reel Big Fish

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16 - Sneer
domingo, 10 de maio de 2009


Sneer acordou no dia seguinte após um sono leve, o sol amanhecia preguiçoso, a grama brilhava o céu era arogantemente azul, um dia inspirante depserdiçado pelo medo que abatia o St. Jimmy No dormitório alguns dormiam e outros fingiam fazê-lo. Na cama ao lado Meyer fedia acordado e ao ver que Sneer também abrira os olhos se levantou, a coisa que o moreno menos precisava agora era brincar de babá, então tornou a fechar os olhos. Tentou lembrar-se de que o deixara tão aborrecido e logo a imagem de Johnny e Lyla veio a sua cabeça. Sua raiva pelo garoto bobo cresceu ainda mais e somente quando as primeiras pessoas se levantaram é que ele achou seguro sair da cama, enganou-se:
-Oi Voldy! - era a voz de Meyer.
-Nem vem, viva a sua vida, não a minha! Não sou seu pai ou seu parente, sai fora! - O garoto ficou sem reação e Sneer saiu bufando para o banheiro com uma toalha muito branca no ombro e roupas coloridas na mão se perguntando se não fora duro demais. Precisava esfriar a cabeça.
Mas seu pensamento logo se transformou quando ao passar por uma janela viu Lyla e Johnny próximos a antiga fogueira, eles pareciam estar discutindo, uma nostalgia bateu tão forte no peito dele quanto a mão de Lyla na cara de Johnny. O último ato recuperou as forças e o ânimo de Sneer, fazendo o velho sorriso prepotente voltar as suas faces. Continuou o resto do trajeto cantarolando “What a Wonderful World”.
Após o que ele julgou o melhor banho de sua vida, saiu para pregar avisos por todo o prédio:
TODOS SE DIRIJAM AO CAMPO ÀS 10 HORAS
No caminho encontrou Linda e comentou animado:
-Belo dia para se viver!
-Só para você – A garota usava preto, mas ele não tinha certeza se era por luto.
-Não ficou sabendo de sua querida irmã? - e após ver que Linda permanecia imóvel completou – Acabei de ver ela e aquele babaca brigarem feio, rolou até tapa na cara.
A notícia pareceu animar a garota que arriscou um sorriso e decidiu acompanhar Sneer até o campo onde ficaram discutindo:
Talvez a bomba esteja no subsolo, poderíamos tentar escavar isso. - disse a ruiva
-Não acho, apelativo demais, seria puro trabalho braçal, creio que o St. Jimmy espera mais de nós.
-Sim, ele espera que morramos logo.
Os dois riram da improvável piada, nem parecia que corriam contra o tempo e que um assassino estava a solta. Quando todos chegaram ao campo ele começou:
-Alguém do Estado queira vir até a frente por favor.- Lyla foi quem se levantou, ela parecia muito feliz. - É o amor – comentou Sneer de modo que apenas ela ouvisse. - Lyla, quero que divida seu pessoal, precisamos começar a trabalhar. Coloque alguns na cozinha, outros na lavanderia, no prédio principal. Dividirei os meus também, todos trabalharão pouco e teremos tempo para aproveitar essas agradáveis férias que o St. Jimmy nos deu.


Música: We Are Gonna Be Friends - The White Stripes

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15,5 - Johnny e Lyla
quinta-feira, 7 de maio de 2009


-Eu conheço bem Sneer – começou Lyla. - e sei que ele está com medo, medo de não ser o melhor, de se sentir frágil e aqui nessa fogueira estão duas pessoas que já causaram isso neles. Existe apenas mais uma, mas esta é outra história. Ele está mais preocupado em discordar de você do que em buscar a verdade.
-Você quer dizer que nós devemos transar?
A decepção assolou Lyla que se levantou silenciosamente, o que foi pior que qualquer palavra, fazendo Johnny logo mudar o tom.
-Talvez aquela não seja outra história. - A garota se virou de repente e encarou o garoto como se indentificasse a alma dele. Não demorou muito ela sorriu, mas antes que pudesse se mover ele continuou – Me desculpa, eu esqueci que com você não preciso ser um idiota. - Johnny não tinha muita experiência com a sinceridade, mas o brilho no olhar da garota, o doce perfume que ainda prevalecia e a pouco visível tatuagem de trevo no pescoço despertavam essa qualidade nele. Sempre fora assim:
-Eu sabia! Sempre soube! Não foi você não é mesmo? - Ela se agarrava na idéia com todas as suas forças, queria acreditar que aquilo era verdade.
-Não, fomos todos e nenhum de nós. - Nada mais foi dito durante muito tempo. A palavra seguinte veio junto com os primeiros raios de sol:
-É melhor nos vestirmos, antes que alguem acorde.


Música: Woman - Wolfmother

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15 - Todos
terça-feira, 5 de maio de 2009


Lyla seguiu para a cozinha atrás de comida. Agia mecânicamente, seus pensamentos estavam cada vez mais confusos. Primeiro Sneer aparecia ali no St. Jimmy, depois Johnny mostrava que não era um idiota completo e em seguida Linda ia atrás dele, no fundo sentia raiva da irmã por isso. A loira ainda usava o terno dado pelo inquieto garoto e ao fuçar um dos bolsos achou um papel e uma caneta, na hora não entendeu bem o significado daquilo e voltou ao preparo dos sanduíches.
Quando voltou ao campo, a fogueira já aquecia e iluminava todo o lugar, a cova já havia sido cavada, só faltavam mesmo os pouco cobiçados lanches. Por maior que fosse o cansaço, ninguém ali parecia estar com fome.
O enterro parecia uma tarefa a ser cumprida o mais rápido possível, todos ali desejavam o conforto e a solidão de suas camas, havia muito a pensar. A garota foi enterrada sem palavras gentis nem pomposas homenagens, ninguém ali a conhecia e nem iria fazê-lo.
Terminada a breve cerimônia, as isoladas, caladas, solitárias e imundas pessoas que ali estavam foram se encaminhando pouco a pouco para os dormitórios, rumo a uma noite mal dormida. No campo restaram só 5: Johnny, Lyla, Linda, Sneer e o inconsciente e fedido Meyer, os 4 primeiros estavam sentados em torno da fogueira que chegava ao fim e gerava cada vez menos calor para aquelas geladas almas. Por muito tempo ficaram calados ,cada um ali esperva ter a chance de ficar a sós com outro, mas nenhum, por teimosia ou persistencia, abandonou a fogueira. Lyla repousava a cabeça no ombro da irmã, os outros dois já não faziam o mesmo e após lentos minutos ouvindo apenas o som distante de um grilo cantar a morte numa distante árvore em luto, Johnny que não conseguia aquietar-se disse:
-Vamos acordar esse idiota. - Houve novamente silêncio, entendendo isso como um sim o garoto levantou se e disparou um poderoso chute na boca do estômago do fétido adormecido que acordou rapidamente. Sneer comentou:
-Que pena, eu já estava excitado com a possibilidade de dar-lhe um beijo.
Abrindo lentamente os olhos, Meyer perguntou tão assustado quanto confuso:
-Que houve? O pesadelo acabou vovó?
-Vovó o caralho, meu nome agora é Johnny Fun! - disse o menino e logo após soltou uma gargalhada gostosa.
-Somos nós que queremos saber o que aconteceu- Sneer interviu.
-Aconteceu? Onde? Quando? - O pálido rosto de Meyer exibia ainda mais dúvidas, se é que isso era possível.
-Na biblioteca, hoje a tarde, uma garota foi assassinada com uma facada no estômago, você é o único que pode ter visto algo. Conte-nos. - A didática transparecia na voz de Lyla.
- Pensei que era apenas um pesadelo, não me recordo direito, não houve som algum, quando me virei para pegar um livro eu a vi caída, agonizando pela vida. – Sneer soltou um suspiro, obviamente não pensara que Meyer soubesse o significado de agonizar – Foi tudo muito rápido, só pude ver um vulto negro fugindo pela janela, tentei fazer alguma coisa mas minhas pernas se recusavam a mover-se. O resto vocês sabem melhor que eu.
-Então não foi nenhum de nós? - A voz de Lyla parecia quase alegre.
-E..eu não posso ter certeza, foi tudo muito rápido, apenas um vulto – fazendo o rosto da garota murchar novamente.
-Não saímos do lugar não é mesmo? - comentou Linda
- Sim, ainda estamos todos em volta da fogueira. - A piada de Sneer não provocou risadas,
-Não me inclua nessa! Para mim o assassino é tão claro quanto que o indiano é uma bicha. - Johnny estava com os olhos fixos em Meyer, os outros 4 tinham os seus fixos nele. - Pensem um pouco, só temos a palavra dele – e apontou para Meyer – e eu não confio! - Seu rosto estava muito vermelho, as veias saltavam de seus braços.
-Você acha que esse idiota matou a garota? - Sneer, Lyla e Linda estavam indignados.
-É! Você acha que eu matei a garota? - a voz esganiçada de Meyer era fraca.
-Vocês entenderam meu ponto de vista. - Porém ninguém estava convencido.
-Por que não você? - Sneer estava articulando a ideia – você foi o único que se reusou a fazer qualquer coisa, disse que tinha seus negócios a resolver, que negócios são esses?
-Fui plantar minha erva. Não vou ficar 200 dias sóbrio, você usa seus métodos e falsos discursos para seus malditos objetivos, eu uso os meus.
-Temos somente sua palavra – e após uma pausa melodramática concluiu- e eu não confio.
Os dois garotos se encaravam ferozmente, a briga estava iminente, mas não seria um duelo de socos e pontapés, não, uma grande guerra estava por começar, entre duas mentes inquietas e um psicopata maluco. Tudo junto ao mesmo tempo.
-Já basta para mim! - Sneer iria explodir a qualquer instante – vou dormir, alguém vem? - Até ele tinha medo de andar sozinho.
Neville foi o primeiro a se levantar. Após uma significativa troca de olhares, Linda levantou decepcionada e seguiu os outros dois gaortos. O vulto de Meyer foi o último a desaparecer.


Música: Hate to Say I Told You So - The Hives

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12 - Linda, Sneer, Lyla e Johnny
quarta-feira, 29 de abril de 2009


O sol começava a se por quando todos voltaram para o campo. A morte da garota era muito mais que apenas uma simples e triste perda de vida jovem, era a confirmação de que aquilo tudo era real, sem pegadinhas ou brincadeiras: uma bomba explodiria os “300 futuros mais promissores do país”. Para piorar ainda havia um assassino a solta ou numa visão mais pessimista, no meio deles. A palavra esperança foi a primeira a ser riscada do dicionário do St. Jimmy.
Linda e os outros que estavam na biblioteca agora eram alvo de constante curiosidade e preconceito. A garota teve que repetir milhares de vezes que o único que poderia ter visto algo era o ainda desmaiado Meyer, na milhonésima primeira ela estourou e mandou todos para o inferno, mas foi prontamente avisada de que já estavam lá.
Sneer era de longe o que se mostrava mais forte, no entanto por dentro era pura tormenta. Toda a tragédia parecia extremamente boa quando comparada com o que ele sentia por Lyla, depois do episódio da sala ele evitava até mesmo olhar a garota que estava sentada sozinha, isolada, tremendo de frio num canto distante da arquibancada.
O sentimento se resfriava na garota e as gélidas brasas faziam seus belos olhos lacrimejarem.Ela só levantou a cabeça quando ouviu passos em sua direção, mas desapontada voltou a baixá-la, era Johnny:
- Não desperdice suas lágrimas por mim.- Tirou um baseado do bolso e ofereceu para a garota que aceitou, o que gerou uma risada seguida de um “Uau” por parte do garoto. - Tome, você parece estar com frio. - E estendeu-lhe o terno outrora roubado.
Lyla já não chorava mais. Estava um pouco desconfiada da bondade de Johnny e assim que vestiu a peça de roupa, devolveu o cigarro para o garoto que sorriu. Do mesmo modo que a irmã ela precisava descarregar a raiva em alguém, já tinha sentimentos problemáticos demais para se preocupar e olhando no fundo dos olhos do garoto disse:
- Como pode sorrir ainda? Você é surdo? Talvez cego? Não percebe o que está acontecendo. - Mas quanto mais fundo ela olhava nos olhos do garoto, menor era a raiva em sua voz, um pensamento veio em sua cabeça, sua intuição sabia que era verdadeiro, mas não poderia ser, simplismente não poderia.
-Já temos gente demais chorando por aqui, estamos todos na mesma merda, não devemos ficar uns contra os outros. Assim como vocês homenageiam a garota com lágrimas e belas palavras, eu prefiro um sorriso. Um assassinato já traz tristeza suficiente. - Contudo ele sabia que a morte da garota era o menor dos motivos pelos quais as maquiagens feitas numa manhã ainda bela se borravam.- Eu sou assim, e fodam-se os outros.
Mas antes que Lyla pudesse processar tanta informação, a voz de Sneer sobressaiu à dos demais:
-Precisamos fazer algo. - Não era uma sugestão, era uma ordem.


Música: Alone - Suicidal Tendencies

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11 - Lyla e Sneer
sábado, 25 de abril de 2009


Sneer e Lyla estam junto com outras tantas pessoas vasculhando as numerosas classes do segundo andar, numa atividade monótona e improdutiva pois até agora tinham encontrado todas desrtas, nenhum único mapa, giz, mesa ou cadeira: aquilo estava tão vazio quanto o cérebro de Meyer. O sol que entrava avassalador pelas largas janelas dando uma iluminação alaranjada ao local o transformava num inferno.
-Pelo menos não precisamos esvaziá-las – começou Sneer quando acabaram de verificar o óbvio, todas as salas estavam vazias. Subiram um andar sem muita esperança e Sneer sugeriu num tom de ordem:
-Vamos nos separar, devem ser umas 30 por aqui, se dividirmos o trabalho economizaremos tempo e voltamos a tempo para festa do nosso amigo. - Fazendo uma referencia a Johnny que foi respondida com alguns risinhos forçados.
Quando todos se afastaram rumo às respectivas tarefas, o garoto puxou Lyla para um dos cômodos vazios e fechou a porta. Planejava aquilo desde que a vira no campo, mas mesmo assim não sabia o que falar:
-Paraíso isso aqui hein! - A garota ainda olhava abismada para ele. Era tudo feliz demais, triste demais, confuso demais.
-Como?Como? O que você faz aqui? - Apesar de ter milhares de perguntas a fazer, a única desesperada que saiu da sua boca foi essa. Ela já não exibia o mesmo brilho no sorriso e o verde dos seus olhos estavam tristes.
-Eu dei um jeito, fiquei louco depois do verão, não aguentava ficar longe! - A qualquer momento ele explodiria, não conseguira planejar a emoção de estar ali com ela depois de tanto tempo. Segurou as mãos da garota que agora o encarava penosamente.
-As coisa mudaram, você sumiu e nunca mais entrou em contato! Não deixou nem uma merda de um bilhete! Eu não sabia o que fazer, o que pensar, fiquei arrasada! - A volta de todas aquelas sensações parcialmente esquecidas despertava o pior dela.
-Eu não pude, entenda! Mais tarde te explicarei toda a história, no momento apenas confie em mim, precisamos fugir disso aqui.
Eles se olharam pelo que pareceram décadas. Uma sensação que Sneer conhecia bem começou a tomá-lo. Mas aquela sublimação teve fim nas palavras de Lyla:
-Se você não quiser me odiar é melhor ir embora. - Lyla tentava se controlar e não descontar a raiva que renascera nela e que agora ardia tristemente.
Aquilo foi como um tiro no peito do garoto. Ele se virou cambaleante, sem direção com um único pensamento. “Não, eu nunca vou te odiar”, porém, de sua boca saiu apenas um:
-Tarde demais. - A frase fez os olhos de Lyla lacrimejarem, mas as lágrimas não foram suficientes para apagar aquilo que ardia em seu peito. Com a visão embaçada, observou o garoto sair sem rumo pela porta.

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4 - Linda e Lyla
domingo, 5 de abril de 2009


Linda e Lyla ainda estavam surpresas com o convite feito pelo St. Jimmy verão passado, estar ali sempre fora um doce sonho, nada mais. É verdade que as gêmeas sempre foram as primeiras da sala e por mais diferente que fossem , a inteligência em ambas era enorme.
As duas eram físicamente idênticas, porém era necessário certo tempo de observação para concluir isso. Enquanto Lyla tinha longos cabelos loiros, Linda tinha o seu curto e tingido de ruivo, Lyla vestia uma saia vermelha que chegava até a altura dos joelhos e uma camisa tão branca quanto seu sorriso, Linda uma calça jeans muito apertada, uma camisa com um Joey Ramone sagaz e uma jaqueta de couro. A pela da loira era perfeita, uma tatuagem de um trevo de quatro folhas no pescoço era parcialmente encoberta pelos fios dourados do cabelo, a ruiva era cheia de tatuagens, todas muito coloridas e alegres. Mas os profundos olhos verdes e o sorriso brilhante denunciavam a semelhança que elas faziam questão em ocultar. Por onde as irmãs passavam, os olhares as acompanhavam, algo que as incomdava profundamente, a sensação de ser julgada era algo repugnante.
Logo na entrada foram instruídas a se dirigir diretamente para o campo, onde ocorreria a primeira aula. Ainda na porta, Lyla contrariada deixou seu celular, e depois seguiram por um enjoativo e perfeito gramado que contornava a gigantesca e alva construção que era o prédio principal. Quando passaram próximas a cantina, Lyla exclamou:
- Tem um garoto dormindo ali? - Contudo, o turbilhão de gente que passava, além de impedir uma visão nítida, arrastou-as rumo ao campo, o que dispersou os pensamentos das garotas quando lá chegaram.
A arquibandada estava abarrotada de gente, cada uma extremamente diferente da outra, algumas exibiam sorrisos presunçosos, outras faziam questão de ficar o menos visível possível e ainda haviam aqueles que se perguntavam o que faziam ali.
Elas se encaminharam para a última fileira da arquibancada e lá se sentaram. Lyla parecia querer comentar algo com a irmã, mas a cara fechada da segunda foi pouco convidativa e a loira permaneceu calada. Aguardaram os últimos alunos se sentarem em silêncio, tentando absorver tudo aquilo. O retardatário era um garoto que parecia ter acabado de ser atropelado por uma comitiva e fumava alegremente o que aparentava ser um cigarro de palha. Elas observaram-no encaminhar-se até onde estavam sentadas, se acomodar logo ao lado delas e apagar o cigarro. Ele olhou com um sorriso bobo pra elas e depois de algum tempo encarando falou:
- Qual de vocês é a gêmea má? - E dizendo isso, olhou demoradamente para as duas como se as avaliasse. - Quem sabe as duas, seria legal nós três nus, sabe, se quiserem experimentar. - E riu alto como se nada ali o preocupasse nem o afetasse. Elas pela primeira vez tiveram coragem de observá-lo mais atentamente e viram olhos muito azuis, um cabelo curto castanho e bagunçado que contrastava com sua pele alvíssima, Linda imaginou a cena dele sendo atropelado logo na porta do hospício, mas teve que se conter pois ouviram a voz do diretor ecoar fortemente, fazendo todo o burburinho cessar e mergulhar toda aquela ansiedade num silêncio perigoso, que logo foi novamente interrompido:
- Senhoras e senhores, gostaria da total atenção de vocês agora. - E antes que todos tentassem ficar ainda mais calados, Lyla ouviu uma voz conhecida murmurrar palavras como “pênis” e “orgão inativo”.


Música : High School Never Ends - Bowling for Soup

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